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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Alma Nova


Zeca Baleiro

Sempre que te vejo assim,
linda, nua e um pouco nervosa,
minha velha alma
cria alma nova,
quer voar pela boca,
quer sair por aí.

E eu digo:
— Calma, alma minha, calminha...
Ainda não é hora de partir.

Então ficamos, minha alma e eu
olhando o corpo teu, sem entender
como é que a alma entra nessa história,
afinal o amor é tão carnal.

Eu bem que tento, tento entender,
mas a minha alma não quer nem saber,
só quer entrar em você,
como tantas vezes já me viu fazer.

E eu digo:
— Calma, alma minha, Calminha!
Você tem muito o que aprender...

sábado, 4 de dezembro de 2010

Vô Imbolá


Zeca Baleiro

"Como é por ignorância transito, mas se fosse unicamente para menoscapar de minha alta prosopopéia, dar-te-ia um soco no alto da sinagoga que por-te-ia mais raso do que solo pátrio!"

Imbola, vô imbolá,
eu quero ver rebolar bola.
Você diz que dá na bola,
na bola você não dá.

Quando eu nasci, era um dia amarelo.
Já fui pedindo chinelo,
rede, café, caramelo.
O meu pai cuspiu farelo,
minha mãe quis enjoar.

Meu pai falou: "Mais um bezerro desmamido!
Meu Deus, que será? Bandido?
Soldado, doido varrido,
milionário desvalido,
padre ou cantor popular?

Nem Frank Zappa, nem Jackson do Pandeiro,
lobo bom e mau cordeiro,
mais metade que inteiro,
me chamei Zeca Baleiro
pra melhor me apresentar.

Nasci danado pra prender vida com clips,
ver a lua além do eclipse.
Já passei por bad trips,
mas agora o que eu quero
é o escuro afugentar.

Faz uma cara que se deu essa empreitada,
hoje a vida é embolada.
Bola pra arquibancada!
Rebolei, bolei e nada
da vida desimbolá.

Vô imbolá minha farra,
minha guitarra, meu riff,
Bob Dylan, banda de pife,
Luiz Gonzaga, Jimmy Cliff.
Poesia não tem dono,
alegria não tem grife.
Quando eu tiver cacife,
vou-me embora pro Recife,
que lá tem um sol maneiro.
Foi falando brasileiro,
que aprendi a imbolá.

Eu vou pra lua,
eu vou pegar um aeroplano.
saturno, marte, urano.
lá tem mais calor humano
que o cinema americano.

Eu vou,
vou vender a minha van
a minha vã filosofia.

"Mais vale um homem todavia muito
do que em comparação jamais."

Heavy Metal do Senhor


Zeca Baleiro

O cara mais underground que eu conheço é o diabo,
que, no inferno, toca cover das canções celestiais,
com sua banda formada só por anjos decaídos.
A plateia pega fogo quando rolam os festivais.

Enquanto isso, Deus brinca de gangorra no playground
do céu, com os santos, que já foram homens de pecado.
De repente, os santos falam: "Toca, Deus, um som maneiro!"
E Deus fala: "Aguenta! Vou rolar um som pesado!"

A banda cover do diabo, acho que já tá por fora.
O mercado tá de olho é no som que Deus criou,
com trombetas distorcidas e harpas envenenadas.
O mundo inteiro vai pirar com o heavy metal do Senhor!

Telegrama


Zeca Baleiro

Eu tava triste, tristinho,
mais sem graça que a topmodel magrela na passarela.
Eu tava só, sozinho,
mais solitário que um paulistano,
que um vilão de filme mexicano.
Tava mais bobo que banda de rock,
que um palhaço do circo Vostok.

Mas ontem eu recebi um telegrama,
era você de Aracaju ou do Alabama,
dizendo "Nego, sinta-se feliz
porque no mundo tem alguém que diz
que muito te ama, que tanto te ama."

Por isso hoje eu acordei com uma vontade danada
de mandar flores ao delegado,
de bater na porta do vizinho e desejar bom dia,
de beijar o português da padaria.

Mama, ô mama,
quero ser seu papá.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Quase Nada


Zeca Baleiro

De você, sei quase nada,
pra onde vai ou porque veio
nem mesmo sei qual é a parte
da tua estrada no meu caminho.

Será um atalho ou um desvio?
Um rio raso, um passo em falso?
Um prato fundo pra toda fome
que há no mundo?

Noite alta que revele
o passeio pela pele,
dia claro, madrugada,
de nós dois não sei mais nada.

Se tudo passa, como se explica
o amor que fica nessa parada?
Amor que chega sem dar aviso,
não é preciso saber mais nada.

domingo, 24 de outubro de 2010

chuva

Zeca Baleiro

Chove lá fora, qual chuva
dentro do meu coração.
Sinto a tristeza caindo,
em pingos de dor, solidão.

É ruim ter tanto amor sendo só,
que o sol não ousa nem chegar.
E só Deus pode me consolar
dessa dor.

Ah! Como você foi ruim!
Nem meu pranto fez você ficar,
nem a chuva fez você voltar.

sábado, 25 de abril de 2009

hotel à beira-mar

Raimundo Fagner e Zeca Baleiro

vejo a luz do Mucuripe,
belo inútil videoclipe,
blues amargo de razão.
nenhum barco me acena
e minhalma quase plena
ri do caos, da confusão
do trânsito engarrafado,
do grito desesperado
calado, da multidão.
cai a tarde como um pano,
sonora como um piano,
sobre a minha solidão.

o céu me fez astronauta
pra que eu ache o que me falta
nesta galáxia fria.
nem a dor nem o desejo,
ao lábio só cabe o beijo,
que é da noite sem o dia.
quisera cantar tal fado
ébrio, febril, assombrado,
a raiva da calmaria,
mas as palavras se foram
como rojões que estouram.
depois do brilho, a agonia.

o amor é um embaraço,
música de um só compasso,
compositor, coração.
no meu rosto toca o vento,
nada mais, só o momento
infinito, breve, vão.
para quê querer futuro,
se só escombros de um muro
sobraram da construção?
a estátua de Iracema
tem o sol como cinema
e eu não tenho ilusão.

o mar vai, o mar vem...
de quem será o mar?
o mar vai, o mar vem...
ninguém pode ter o mar.

terça-feira, 17 de março de 2009

daqui pra lá, de lá pra cá

Raimundo Fagner e Zeca Baleiro

era um pacato cidadão sem documento ,
não tinha nome, profissão, não tinha tempo,
mas certo dia deu-se um caso
e ele embarcou num disco.

E foi levado pra bem longe
do asterisco em que vivemos.

ele partiu e não voltou,
e não voltou porque não quis.
quero dizer: ficou por lá,
já que por lá se é mais feliz.

e um espaçograma ele enviou
pra quem quisesse compreender,
mas ninguém nunca decifrou
o que ele nos mandou dizer:

terra, mar e ar, atenção:
o futuro é hoje e cabe
na palma da mão

para azar de quem não sabe e não crê
que se pode sempre a sorte escolher
e enterrar qualquer estrela no chão.

viet, vista, visão,
viet, vista, visão.

terra mar e ar, atenção:
fica a morte por medida,
fica a vida por prisão.

um real de amor

Raimundo Fagner e Zeca Baleiro

o que eu não faço em tua companhia?
dançamos na praia ao nascer do dia.

o que ue não faço em tua companhia?
brincamos na rua ao nascer da lua.

com um real de amor que tu me dás,
faço versos de febre de paixão,
pego a fraca miragem da ilusão
e a transformo em ferro e carvão.

com um real de amor que tu me dás,
faço a flor na mais completa escuridão,
desafio o terror da solidão
e a transformo em pó na multidão.

o real de amor que tu me dás
generoso se faz em minha mão,
mata minha fome
e multiplica o pão.

terça-feira, 3 de março de 2009

balada de agosto

Zeca Baleiro e Raimundo Fagner

lá fora a chuva desaba e, aqui no meu rosto,
cinzas de agosto e, na mesa, o vinho derramado.
tanto orgulho, que não meço
o remorso das palavras que não digo.

mesmo na luz não há quem possa se esconder no escuro;
duro caminho, o vento, a voz da tempestade.
no filme, outra novela
é o disfarce que revela o bandido.

meu coração vive cheio de amor e deserto.
perto de ti dança a minha alma desarmada.
nada peço ao sol que brilha,
se o mar é uma armadilha nos teus olhos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

azulejo

Zeca Baleiro

era uma bela, era uma tarde, o casario,
era um cenário de um poema de Gullar.
tão de repente, ela sumiu numa viela;
eu no sobrado, vi uma sombra em seu lugar.

cada azulejo da cidade ainda recorda
e cada corda onde tanjo a minha dor...

no alaúde da saudade,
num velho banjo, num bandolim,
chorando o fim do nosso amor.

a primavera bem virá depois do inverno,
a flora em festa nos trará outro verão.
eu fecho a casa, dou adeus ao gelo eterno;
vou viver de brisa, arder em brasa
no calor do Maranhão.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

à flor da pele

zeca baleiro

ando tão à flor da pele,
que qualquer beijo de novela me faz chorar.
ando tão à flor da pele,
que teu olhar, flor na janela, me faz morrer.

ando tão à flor da pele,
que meu desejo se confunde com a vontade de não ser.
ando tão à flor da pele,
que a minha pele tem o fogo do juízo final. [...]