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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Campo Branco

Elomar

Campo branco, minhas penas, que pena, secou.
Todo o bem que nós tinha era a chuva, era o amor.
Não tem nada não, nós dois vai penando assim.

Campo lindo, ai que tempo ruim!
Tu sem chuva e a tristeza em mim.

Peço a Deus, a meu Deus,
grande Deus de Abraão,
pra arrancar as penas do meu coração,
dessa terra seca em ânsia e aflição.
Todo bem é de Deus que vem.

Quem tem bem louva a Deus seu bem.
Quem não tem pede a Deus que vem.

Pela sombra do vale do rio Gavião,
os rebanhos esperam a trovoada chover.
Não tem nada, não, também no meu coração.

Vou ter relampo e trovão,
minha alma vai florescer.

Quando a amada e esperada trovoada chegar
e, antes das quadra, as marrã vão ter.
Sei que inda vou ver marrã parir sem querer,
amanhã no amanhecer.

Tardã, mais sei que vou ter;
meu dia ainda vai nascer.

E esse tempo da vinda tá perto de vim,
sete casca aroeira cantaram pra mim.
Tatarena vai rodar, vai botar fulô.

Marela de uma vez só,
pra ela de uma vez só.

domingo, 9 de maio de 2010

matança

Jatobá

Cipó caboclo tá subindo na virola,
chegou a hora do pinheiro balançar,
sentiro o cheiro do mato da imburana,
descansar, morrer de sono na sombra da barriguda.

De nada vale tanto esforço do meu canto.
Pra nosso espanto, tanta mata haja, vão matar!
Foi mata atlântica e a próxima, amazônica,
arvoredos seculares impossível replantar.

Que triste sina teve cedro, nosso primo;
desde menino, que eu nem gosto de falar:
depois de tanto sofrimento, seu destino
virou tamborete, mesa, cadeira, balcão de bar.

Quem por acaso ouviu falar da sucupira?
Parece até mentira que o jacarandá,
antes de virar poltrona, porta, armário,
morar no dicionário, vida-eterna milenar...

Quem hoje é vivo corre perigo
e os inimigos do verde, da sombra, o ar
que se respira e a clorofila 
das matas virgens destruídas, bom lembrar
que, quando chegar a hora,
é certo que não demora,
não chame Nossa Senhora!
Só quem pode nos salvar é...

Caviúna, cerejeira, baraúna,
imbuia, pau-d'arco, solva,
juazeiro, jatobá,
gonçalo-alves, paraíba, itaúba,
louro, ipê, paracaúba,
peroba, massaranduba,
carvalho, mogno, canela, imbuzeiro,
catuaba, janaúba, arueira, araribá,
pau-ferro, angico,amargoso, gameleira,
andiroba,copaíba, pau-brasil, jequitibá.

Quem hoje é vivo
corre perigo...

sexta-feira, 20 de março de 2009

sete cantigas para voar

Vital Farias

cantiga de campo de concentração,
a gente bem sente com precisão,
mas recordo a sua imagem
naquela viagem que eu fiz pro sertão.
eu, que nasci na floresta,
canto e faço festa no seu coração.
voa, voa, azulão!

cantiga de roça de um cego apaixonado,
cantiga de moça lá do cercado
que canta a fauna e a flora
e ninguém ignora se ela quer brotar;
bota uma flor no cabelo,
com alegria e zelo para não secar.
voa, voa, azulão!

cantiga de ninar a criança na rede.
mentira de água é matar a sede.
– diz pra mãe que eu fui pro açude,
fui pescar um peixe – isso eu não fui não:
tava era com namorado,
pra alegria e festa do meu coração.
voa, voa, azulão!

cantiga de índio que perdeu sua taba;
no peito, esse incêndio seu não se apaga.
deixe o índio no seu canto,
que eu canto um acalanto,
faço outra canção.
deixe o peixe, deixe o rio,
que o rio é um fio de inspiração.
voa, voa, azulão!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

estampas eucalol

Geraldo Azevedo

montado no meu cavalo,
libertava Prometeu,
toureava o minotauro
e era amigo de Teseu.
viajava o mundo inteiro
nas estampas Eucalol.
à sombra de um abacateiro,
Ícaro fugia do sol.

subia o Monte Olimpo,
ribanceira lá do quintal
e mergulhava até Netuno
no oceano abissal.

São Jorge ia pra lua
lutar contra o dragão;
São Jorge quase morria,
mas eu lhe dava a mão
e voltava trazendo a moça
com quem ia me casar:
era a minha professora,
que roubei do rei Lear.