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sábado, 25 de abril de 2009

hotel à beira-mar

Raimundo Fagner e Zeca Baleiro

vejo a luz do Mucuripe,
belo inútil videoclipe,
blues amargo de razão.
nenhum barco me acena
e minhalma quase plena
ri do caos, da confusão
do trânsito engarrafado,
do grito desesperado
calado, da multidão.
cai a tarde como um pano,
sonora como um piano,
sobre a minha solidão.

o céu me fez astronauta
pra que eu ache o que me falta
nesta galáxia fria.
nem a dor nem o desejo,
ao lábio só cabe o beijo,
que é da noite sem o dia.
quisera cantar tal fado
ébrio, febril, assombrado,
a raiva da calmaria,
mas as palavras se foram
como rojões que estouram.
depois do brilho, a agonia.

o amor é um embaraço,
música de um só compasso,
compositor, coração.
no meu rosto toca o vento,
nada mais, só o momento
infinito, breve, vão.
para quê querer futuro,
se só escombros de um muro
sobraram da construção?
a estátua de Iracema
tem o sol como cinema
e eu não tenho ilusão.

o mar vai, o mar vem...
de quem será o mar?
o mar vai, o mar vem...
ninguém pode ter o mar.

terça-feira, 17 de março de 2009

daqui pra lá, de lá pra cá

Raimundo Fagner e Zeca Baleiro

era um pacato cidadão sem documento ,
não tinha nome, profissão, não tinha tempo,
mas certo dia deu-se um caso
e ele embarcou num disco.

E foi levado pra bem longe
do asterisco em que vivemos.

ele partiu e não voltou,
e não voltou porque não quis.
quero dizer: ficou por lá,
já que por lá se é mais feliz.

e um espaçograma ele enviou
pra quem quisesse compreender,
mas ninguém nunca decifrou
o que ele nos mandou dizer:

terra, mar e ar, atenção:
o futuro é hoje e cabe
na palma da mão

para azar de quem não sabe e não crê
que se pode sempre a sorte escolher
e enterrar qualquer estrela no chão.

viet, vista, visão,
viet, vista, visão.

terra mar e ar, atenção:
fica a morte por medida,
fica a vida por prisão.

um real de amor

Raimundo Fagner e Zeca Baleiro

o que eu não faço em tua companhia?
dançamos na praia ao nascer do dia.

o que ue não faço em tua companhia?
brincamos na rua ao nascer da lua.

com um real de amor que tu me dás,
faço versos de febre de paixão,
pego a fraca miragem da ilusão
e a transformo em ferro e carvão.

com um real de amor que tu me dás,
faço a flor na mais completa escuridão,
desafio o terror da solidão
e a transformo em pó na multidão.

o real de amor que tu me dás
generoso se faz em minha mão,
mata minha fome
e multiplica o pão.

terça-feira, 3 de março de 2009

balada de agosto

Zeca Baleiro e Raimundo Fagner

lá fora a chuva desaba e, aqui no meu rosto,
cinzas de agosto e, na mesa, o vinho derramado.
tanto orgulho, que não meço
o remorso das palavras que não digo.

mesmo na luz não há quem possa se esconder no escuro;
duro caminho, o vento, a voz da tempestade.
no filme, outra novela
é o disfarce que revela o bandido.

meu coração vive cheio de amor e deserto.
perto de ti dança a minha alma desarmada.
nada peço ao sol que brilha,
se o mar é uma armadilha nos teus olhos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

azulejo

Zeca Baleiro

era uma bela, era uma tarde, o casario,
era um cenário de um poema de Gullar.
tão de repente, ela sumiu numa viela;
eu no sobrado, vi uma sombra em seu lugar.

cada azulejo da cidade ainda recorda
e cada corda onde tanjo a minha dor...

no alaúde da saudade,
num velho banjo, num bandolim,
chorando o fim do nosso amor.

a primavera bem virá depois do inverno,
a flora em festa nos trará outro verão.
eu fecho a casa, dou adeus ao gelo eterno;
vou viver de brisa, arder em brasa
no calor do Maranhão.