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sexta-feira, 3 de abril de 2009

brincando de ser eterno

Nilson Chaves

tentei segurar a água na mão,
a água escorreu.
ficou um pouco que o sol secou,
e aí mais nada.

de repente era o futuro que jamais pensei,
porque, de ingênuo, quis acreditar
que algo no mundo podia brincar
de ser eterno.

e eu sorri pro desembarcadouro
e desembarquei, não sem sofrimento,
porque algo em nós quer permanecer.
mas falam de um tempo onde era o nada
e, se havia um nada, havia um ser.

domingo, 15 de março de 2009

não peguei o ita

Nilson Chaves

por sobre a floresta amazônica, o meu destino de cantador.
Somália, Angola, Brasil, terceiro mundo: a mesma cor.
eu penso que o homem exala seu cheiro de chão,
se ele é o fruto e a raiz, tem a luz da paixão
e finca o pé qual adubo e o seu coração procria.

meu pai tem no riso, um rio de esperança revelador.
minha mãe não esconde no olhar desesperança; revela a dor.
mas ponho na boca um gosto de cupuaçu,
meu hálito cruza o país de Norte a Sul
e sinto o prazer de saber quem eu sou e o que sou pro mundo.

você sabe dançar e cantar o carimbó? eu sei!
a baía mais linda que há é a do Guajará, meu bem.
é gostoso poder navegar, te cantar e reverenciar
nas esquinas de outra cidade, nos cantos da vida...
não peguei o Ita!

eu trago a coragem na voz, Mestre Lucindo é cantador.
mangueiras resistem ao tempo e ao universo devastador.
o bosque "Rodrigues" não é a Lagoa do Rio,
mas nele a vida habita, engravida no cio.
o índio caboclo semeia segredos de amor, ainda.

o mundo percebe teu significado, o teu valor,
respira teu medo e grita o teu perigo avassalador.
eu quero poder compreender e viver mais além,
tomar tacacá numa tarde da bela Belém,
viver teu calor, ir à praça e poder cochichar com a chuva.

você sabe dançar e cantar o siriá? eu sei!
este aqui não é o Rio de Janeiro, mas é o Rio Guamá, meu bem.
vai ter show hoje no Preamar, tem a feira pra tapiocar.
vou chegar em São Paulo e brincar com o velho Bixiga...
não peguei o Ita!

não peguei o Ita!
não peguei o Ita!
não peguei o Ita, não!

segunda-feira, 9 de março de 2009

tempodestino

Nilson Chaves e Vital Lima

há entre o tempo e o destino
um caso antigo, um elo, um par.
que pode acontecer, menino,
se o tempo não passar?

feito essas águas que, subindo,
forçaram a gente a se mudar.
que pode acontecer, meu lindo,
se o tempo não passar?

o tempo é que me deu amigos
e este amor que não me sai,
que doura os campos de trigo
e os cabelos de meu pai.
faz rebentar paixões,
depois se nega às criações
e, assim, mantém a vida.
que acontecerá aos corações,
se o tempo não passar?

não mato meu amor, no fundo,
porque tenho amizade nele,
que já faz parte do meu mundo,
do tempo entre eu e ele.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

amazônia

Nilson Chaves

sim, eu tenho a cara do saci,
o sabor do tucumã,
tenho as asas do curió
e namoro cunhantã.

tenho o cheiro do patchouli
e o gosto do taperebá,
eu sou açaí e cobra grande.
o curupira, sim, saiu de mim,
saiu de mim, saiu de mim...

sei cantar o "tar" do carimbó,
do siriá e do lundú,
um caboclo lá de Cametá
e um índio do Xingu.

tenho a força do muiraquitã,
sou pipira das manhãs;
sou o boto, igarapé,
sou rio Negro e Tocantins,
samaúma da floresta,
peixe-boi e jabuti,
mururé, filho da selva,
a boiúna está em mim.

sou curumim, sou Guajará,
o Waldemar, o Marajó,
cunhã.

a pororoca, sim, nasceu em mim,
nasceu em mim, nasceu em mim...

sim eu tenho a cara do Pará,
o calor do tarubá,
um uirapuru que sonha,
sou muito mais,
eu sou Amazônia.

terça-feira, 4 de março de 2008

tecai tutera amocariu

Nilson Chaves

tecai, tutera, amocariu.¹

itororó, pirajá, perebebuí,
cajuru, cametá e marajó.
tecai, tutera, amocariu.¹

foi o curumim
para adormecer
na samaúma,
mãe da floresta,
plumas ao vento,
itaguari.

tecai, tutera, amocariu.¹


LEGENDA:
¹ em tupi: "adeus, estou partindo para nunca mais voltar."

terça-feira, 25 de setembro de 2007

longe perto

nilson chaves
em homenagem à minha Belém do Pará...

toda vez que eu viajar,
é sinal que estou aqui.
e, quando estiver por lá,
quer dizer: nunca parti.
a vontade de voltar
não impede a de seguir
e, por onde quer que eu vá,
estarei vivendo em ti.

partindo pra qualquer cidade,
tô voltando pra te ver;
ficando sob essas mangueiras,
fui-me embora sem querer.
mandei trocar minha saudade
por um fato natural:
viver correndo pelo mundo
pra chegar no teu quintal.

eu sou mesmo como um rio,
que se vai enquanto vem,
o reverso do navio,
que não fica, estando além.
no Caribe estou aqui;
se atravesso, fico aquém;
mas, se estou longe de ti,
tua presença me retém!

eu nunca fui embora,
mesmo quando parti.
fui voltando pra tua porta,
vivo chegando aqui.

eu? eu nunca fui embora,
mesmo quando parti.
fui voltando pra tua porta,
vivo chegando aqui.