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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Saudade


Paulinho Moska e Chico César


Saudade: a lua brilha na lagoa.
Saudade: a luz que sopra da pessoa.
Saudade igual farol: engana o mar, imita o sol.
Saudade: sal e dor que o vento traz.

Saudade: som do tempo que ressoa.
Saudade: o céu cinzento, a garoa.
Saudade desigual, nunca termina no final.
Saudade: eterno filme em cartaz.

A casa da saudade é o vazio,
O acaso da saudade, o fogo frio.
Quem foge da saudade preso por um fio
se afoga em outras águas, mas no mesmo rio.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Pétala por Pétala


Chico César

A sua falta me fez ver
o que de mau a vida pode ter
e a sua volta me dá mais
de todo o mel que eu ousaria querer.

Sua presença me faz rir
nos dias feitos pra chover.
Não há revolta pra sentir,
nem há milagre pra não crer.

Vinda que finda
a tinta de pintar tristeza
e deixa os mistérios plenos de sentido,
e a flor da vida toda...

Pétala por pétala
que um tolo pode colher
sem saber que é amor.

Vem e aumenta em mim o único que sou,
me subtrai do que em mim passou.
É amor...

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Saharienne

Chico César

Estive pensando em você;
uma foto junto a uma fonte,
congelada pela câmara,
água de beber, camará.

A roupa leve, lembrança de neve,
gelo seco no sertão.

Saharienne.

Daqui de onde estou,
diante da televisão sem som,
posso ouvir (e ouço)
o alarido surdo dos curdos.

Sinto cheiro de carne humana assada,
a morte assídua, promíscua, conspícua
e tão pouco asseada.

Saharienne.

Saravá, Sarah Vaughan,
quem te escravisaurou?
O que fez a beirute fez ao rio,
a teia de aranha midi
me dá conforto e arrepio.

O carneiro sacrificado morre.
O amor morre.
Só a arte, não.

Saharienne.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

beradêro

chico césar


Os olhos tristes da fita
rodando no gravador,
uma moça cosendo roupa
com a linha do equador
e a voz da santa dizendo:
"O que é que eu tou fazendo
cá em cima desse andor?".

A tinta pinta o asfalto,
enfeita a alma, motorista
é cor na cor da cidade,
batom do lábio nortista.
O olhar vê tons tão sudestes
e o beijo que vós me nordestes,
arranha-céu da boca paulista.

Cadeiras elétricas da baiana,
sentença que o turista cheire;
e os sem-amor, os sem-teto,
os sem-paixão, sem-alqueire.
No peito dos sem-peito, uma seta
e a cigana analfabeta
lendo a mão de Paulo Freire.

A contenteza do triste,
tristezura do contente,
vozes de faca cortante,
como o grito da serpente
são sons de sim – não, contudo,
pé quebrado, verso mudo,
grito no hospital da gente.

São sons, são sons de sim.
São sons, são sons de sim.
Não, no, nein, não, no nein.
Não, no, nein, não, no nein.

São sons, são sons de sim.
São sons, são sons de sim
– não, contudo,
pé quebrado, verso mudo,
grito no hospital da gente.

"Body body body body,
tem uma bala no meu coco.
Body body body body,
e não é bala de coco."

"Catolé do Rocha,
praça de guerra.
Catolé do Rocha,
onde o homem bode berra."