Mostrando postagens com marcador Caetano Veloso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caetano Veloso. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Eclipse Oculto


Caetano Veloso

Nosso amor não deu certo, gargalhadas e lágrimas.
De perto, fomos quase nada,
o tipo do amor que não pode
dar certo na luz da manhã.
E desperdiçamos os blues do Djavan.

Demasiadas palavras, fraco impulso de vida,
travada a mente na ideologia.
E o corpo não agia, como se o coração
tivesse, antes, que optar
entre o inseto e o inseticida.

Como nunca se mostra o outro lado da lua,
eu desejo viajar do outro lado da sua.
Meu coração, galinha de leão,
não quer mais amargar frustração,
ó, eclipse oculto na luz do verão.

Mas bem que nós fomos muito felizes só durante o prelúdio,
gargalhadas e lágrimas até irmos pra o estúdio,
mas, na hora da cama, nada pintou direito,
é minha cara falar:
— Não sou proveito, sou pura fama.

Nada tem que dar certo, nosso amor é bonito.
Só não disse ao que veio, atrasado e aflito
e ficamos no meio, sem saber os desejos
aonde é que iam dar,
e aquele projeto ainda estará no ar?

Não quero que você fique fera comigo.
Quero ser seu amor, quero ser seu amigo,
quero que tudo saia como som de Tim Maia,
sem grilos de mim,
sem desespero, sem tédio, sem fim.



Não me queixo,
eu não soube te amar.
Mas não deixo
de querer conquistar
uma coisa qualquer em você.
O que será?

sexta-feira, 29 de maio de 2009

um índio

Caetano Veloso

um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante,
de uma estrela que virá numa velocidade estonteante
e pousará no coração do hemisfério sul,
na América, num claro instante.

depois de exterminada a última nação indígena
e o espírito dos pássaros, das fontes de água límpida,
mais avançado do que a mais avançada
das mais avançadas das tecnologias...

virá, impávido que nem Muhamed Ali,
virá, que eu vi, apaixonadamente como Peri,
virá, que eu vi, tranquilo e infalível como Bruce Lee,
virá, que eu vi, o axé do afoxé, Filhos de Ghandi.

um índio preservado em pleno corpo físico,
em todo sólido, todo gás e todo líquido,
em átomos, palavras, alma, cor, em gesto, em cheiro,
em sombra em luz, em som magnífico.

num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico,
do objeto, sim, resplandecente, descerá o índio.
se as coisas que eu sei que ele dirá, fará,
não sei dizer assim, de modo explícito...

virá, impávido que nem Muhamed Ali,
virá, que eu vi, apaixonadamente como Peri,
virá, que eu vi, tranquilo e infalível como Bruce Lee,
virá, que eu vi, o axé do afoxé, Filhos de Ghandi.

e aquilo que, nesse momento, se revelará aos povos,
surpreenderá a todos, não por ser exótico,
mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
quando terá sido óbvio.

sábado, 21 de março de 2009

if you hold a stone (marinheiro só)

Caetano Veloso

if you hold a stone,
hold it in your hand
if you feel the weight,
you'll never be late
to understand.

mas eu não sou daqui,
eu não tenho amor,
eu sou da Bahia,
de São Salvador.

eu não vim aqui
para ser feliz.
cadê meu sol dourado?
e cadê as coisas do meu país?