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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Tudo Sobre Você


Zélia Duncan


Queria descobrir
em vinte e quatro horas
tudo que você adora,
tudo que te faz sorrir.

E, num fim de semana,
tudo que você mais ama
e, no prazo de um mês,
tudo que você já fez.
É tanta coisa que eu não sei...

Não sei se eu saberia
chegar até o final do dia sem você.

E até saber de cor
no fim desse semestre
o que mais te apetece,
o que te cai melhor.

Enfim eu saberia
trezentas e sessenta e cinco
noites bastariam
pra me explicar por que,
como isso foi acontecer...

Não sei se eu saberia
chegar até o final do dia sem você.

Porque, em tão pouco tempo,
faz tanto tempo que eu te queria!...

quarta-feira, 23 de março de 2011

Fado Tropical


Chico Buarque


Oh, musa do meu fado,
oh, minha mãe gentil,
te deixo consternado
no primeiro abril.
Mas não sê tão ingrata!
Não esquece quem te amou
e em tua densa mata
se perdeu e se encontrou.

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro). Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga,
alecrins no canavial,
licores na moringa:
um vinho tropical.
E a linda mulata
com rendas do Alentejo
de quem numa bravata
arrebato um beijo...

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto,
De tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado, eu mesmo me contesto.
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão de incesto.
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa,
Mas meu peito se desabotoa.
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa,
Pois que senão o coração perdoa".

Guitarras e sanfonas,
jasmins, coqueiros, fontes,
sardinhas, mandioca
num suave azulejo;
e o rio Amazonas,
que corre trás-os-montes
e, numa pororoca,
deságua no Tejo...

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um império colonial!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

san vicente

Milton Nascimento

coração americano,
acordei de um sonho estranho,
um gosto vidro e corte,
um sabor de chocolate
no corpo e na cidade,
um sabor de vida e morte.
coração americano,
um sabor de vidro e corte.

à espera na fila imensa
e um corpo negro se esqueceu.
estava em san vicente,
a cidade e suas luzes.
estava em san vicente,
as mulheres e os homens...
coração americano,
um sabor de vidro e corte.

as horas não se contavam
e o que era negro anoiteceu.
enquanto se esperava,
eu estava em san vicente.
enquanto acontecia,
eu estava em san vicente.
coração americano,
um sabor de vidro e corte.