sábado, 21 de março de 2009

novos tempos

Mart'nália

a chuva chega e ela vem lavar,
vem me livrar do mal.
é água fresca para aliviar
meu coração que secou
de tanto pranto derramado pela mágoa
que se instalou no meu peito
de um jeito tão perverso,
hoje se desfaz nesses versos.

um arco-íris se formou no céu,
é um sinal que a paz está de volta na minha alma
sinto calma, são novos tempos, enfim,
graças à chuva, que levou o rancor,
me permitindo viver outro grande amor.

if you hold a stone (marinheiro só)

Caetano Veloso

if you hold a stone,
hold it in your hand
if you feel the weight,
you'll never be late
to understand.

mas eu não sou daqui,
eu não tenho amor,
eu sou da Bahia,
de São Salvador.

eu não vim aqui
para ser feliz.
cadê meu sol dourado?
e cadê as coisas do meu país?

sexta-feira, 20 de março de 2009

sete cantigas para voar

Vital Farias

cantiga de campo de concentração,
a gente bem sente com precisão,
mas recordo a sua imagem
naquela viagem que eu fiz pro sertão.
eu, que nasci na floresta,
canto e faço festa no seu coração.
voa, voa, azulão!

cantiga de roça de um cego apaixonado,
cantiga de moça lá do cercado
que canta a fauna e a flora
e ninguém ignora se ela quer brotar;
bota uma flor no cabelo,
com alegria e zelo para não secar.
voa, voa, azulão!

cantiga de ninar a criança na rede.
mentira de água é matar a sede.
– diz pra mãe que eu fui pro açude,
fui pescar um peixe – isso eu não fui não:
tava era com namorado,
pra alegria e festa do meu coração.
voa, voa, azulão!

cantiga de índio que perdeu sua taba;
no peito, esse incêndio seu não se apaga.
deixe o índio no seu canto,
que eu canto um acalanto,
faço outra canção.
deixe o peixe, deixe o rio,
que o rio é um fio de inspiração.
voa, voa, azulão!

terça-feira, 17 de março de 2009

beijo de açaí

Sóstenes

ô menino, me dê o açaí
pra eu sair por aí
com a cara lambuzada e feliz,
remexendo os quadris.
no suíngue do meu carimbó,
não tem nada melhor
no suíngue do meu carimbó.

você é como o açaí que eu tomo todo dia
estrela linda, santa na berlinda, que me guia,
lua cheia de desejos, chega mais,
me dá um beijo, beijo.

vem cá, vem cá me dá um beijo!
vem, meu amor, é só um beijo!
não tem segredo, não tem medo,
meu brinquedo é só um beijo.
vem cá, me dá um beijo,
beijo com sabor de açaí.

carimbó caboclo

Lucinnha Bastos

esse meu carimbó é muito louco,
na batida da mão parece um coco.
quando a menina mexe é um sufoco,
endoidece a cabeça do caboco.

quem é santo conhece esse pau oco,
diz que um dia inteiro é muito pouco.
pra fazer um carimbó bem barroco
tem que ter gente batendo nesse toco.

tem que ter gente batendo no toco,
tem que ter gente batendo no toco.

carimbó, carimbó, carimbó, carimbó
vem meu amor vem dançar!
te quero bem e quero também,
contigo balançar.

a primeira festa

Lucinnha Bastos

ainda ontem com você de madrugada no cais,
nessa onda de cio da tribo e da paz,
ileaiê, a vida me ensinou a nadar.

ser ribeirinho também ajudou,
aqui no meio da floresta a vida não parou.
vivemos da primeira festa
e, nessa festa de batuque e coração,
tua batida pode ser minha canção,
tocando muito no meu prazer.
eu sou um boto e um sapinho pra você.
e canto mesmo pra te dizer:

eu tô na mira, eu tô na tua reta, ilê,
é proibido te beijar na curva, aiê.
eu sou a curva na tua mira reta, ah!
é proibido fumar!

daqui pra lá, de lá pra cá

Raimundo Fagner e Zeca Baleiro

era um pacato cidadão sem documento ,
não tinha nome, profissão, não tinha tempo,
mas certo dia deu-se um caso
e ele embarcou num disco.

E foi levado pra bem longe
do asterisco em que vivemos.

ele partiu e não voltou,
e não voltou porque não quis.
quero dizer: ficou por lá,
já que por lá se é mais feliz.

e um espaçograma ele enviou
pra quem quisesse compreender,
mas ninguém nunca decifrou
o que ele nos mandou dizer:

terra, mar e ar, atenção:
o futuro é hoje e cabe
na palma da mão

para azar de quem não sabe e não crê
que se pode sempre a sorte escolher
e enterrar qualquer estrela no chão.

viet, vista, visão,
viet, vista, visão.

terra mar e ar, atenção:
fica a morte por medida,
fica a vida por prisão.

um real de amor

Raimundo Fagner e Zeca Baleiro

o que eu não faço em tua companhia?
dançamos na praia ao nascer do dia.

o que ue não faço em tua companhia?
brincamos na rua ao nascer da lua.

com um real de amor que tu me dás,
faço versos de febre de paixão,
pego a fraca miragem da ilusão
e a transformo em ferro e carvão.

com um real de amor que tu me dás,
faço a flor na mais completa escuridão,
desafio o terror da solidão
e a transformo em pó na multidão.

o real de amor que tu me dás
generoso se faz em minha mão,
mata minha fome
e multiplica o pão.

domingo, 15 de março de 2009

não peguei o ita

Nilson Chaves

por sobre a floresta amazônica, o meu destino de cantador.
Somália, Angola, Brasil, terceiro mundo: a mesma cor.
eu penso que o homem exala seu cheiro de chão,
se ele é o fruto e a raiz, tem a luz da paixão
e finca o pé qual adubo e o seu coração procria.

meu pai tem no riso, um rio de esperança revelador.
minha mãe não esconde no olhar desesperança; revela a dor.
mas ponho na boca um gosto de cupuaçu,
meu hálito cruza o país de Norte a Sul
e sinto o prazer de saber quem eu sou e o que sou pro mundo.

você sabe dançar e cantar o carimbó? eu sei!
a baía mais linda que há é a do Guajará, meu bem.
é gostoso poder navegar, te cantar e reverenciar
nas esquinas de outra cidade, nos cantos da vida...
não peguei o Ita!

eu trago a coragem na voz, Mestre Lucindo é cantador.
mangueiras resistem ao tempo e ao universo devastador.
o bosque "Rodrigues" não é a Lagoa do Rio,
mas nele a vida habita, engravida no cio.
o índio caboclo semeia segredos de amor, ainda.

o mundo percebe teu significado, o teu valor,
respira teu medo e grita o teu perigo avassalador.
eu quero poder compreender e viver mais além,
tomar tacacá numa tarde da bela Belém,
viver teu calor, ir à praça e poder cochichar com a chuva.

você sabe dançar e cantar o siriá? eu sei!
este aqui não é o Rio de Janeiro, mas é o Rio Guamá, meu bem.
vai ter show hoje no Preamar, tem a feira pra tapiocar.
vou chegar em São Paulo e brincar com o velho Bixiga...
não peguei o Ita!

não peguei o Ita!
não peguei o Ita!
não peguei o Ita, não!

chão do caminho

Vital Lima

o vento que sacode o mato não está sozinho:
bate suas asas no canto dos passarinhos,
voa nos galhos mais altos e no chão do caminho,
ouvindo a estrela que dança no azul-marinho.

voa nos galhos mais altos e no chão do caminho,
ouvindo a estrela que dança no azul-marinho.

eu, quando pareço sozinho, apenas pareço,
pois imagens, figuras, pessoas que eu não esqueço
crescem no meu pensamento, aqui dentro de mim.
queria tanto saber teu endereço,
que é tanta a saudade que eu sinto de ti.

queria tanto saber teu endereço,
que é tanta a saudade que eu sinto de ti.

segunda-feira, 9 de março de 2009

som

Céu na Boca

"Não há linguagem, nem há palavras,
e deles não se ouve nenhum som.
No entanto por toda a terra se faz ouvir a sua voz,
e as suas palavras até os confins do mundo."
(Salmo 19.2-4)



som, sonoridade,
vem na boléia da idéia,
som, variedade,
vem na veia e não bobeia,
pulsa imaginação,
se torna cheiro e coração;
falando, mesmo calado,
o não-dizer é seu recado.

som em toda parte,
a parte de um todo;
som é tanta arte,
a arte de um povo;
um cais sem barco
pronto a ser aportado,
flor perfumante
sem ter desabrochado.

som, a poesia
devorando a palavra escondida;
som, letra cantando,
melodia, nota vivida;
som, presente divino
trazido pelo vento;
sendo som,
construindo o som eterno
no tempo.

som, sonoridade,
som, variedade.

falando, mesmo calado,
o não-dizer é seu recado.

canção do guerreiro

Céu na Boca

(1)
solidão desespera,
medo qual avestruz,
limo que criou a pedra dura
de tanto a água bater.

solidão dilacera,
medo de se perder
e que, ao final do túnel,
não venha a tão sonhada luz.

vem, Senhor, me sustenta
em meio à solidão,
neste dia de angústia,
segura a minha mão.

(2)
uma dor, uma lágrima ferida,
dividida, escondida,
corre o rosto e se perde por desleixo,
corta o peito, dilacera.

ah, solidão!
quando vem, vem só.

ferida não sara
com o tempo...
tempo.


na lembrança, uma luz ficou perdida,
esquecida, consumida.
na distância, uma música sofrida,
repetida, sem guarida.

ah, solidão!
quando vem, vem só.

ferida não sara
com o tempo...
tempo.


bem ao longe, uma cruz imerecida,
tão sofrida, dor sentida,
com alguém que morreu pra dar a vida
pra que eu viva sem ferida,
sem ferida.

sobre todos nós

Céu na Boca

a canção que eu não farei me invade o pensamento,
faz calar o infinito e ecoar no tempo.
quem nos ouvirá nas mágoas?
quem nos salvará das águas?
quem terá a chave que abre todo sentimento?

teus vestígios no país são marcas na minh'alma,
a poeira que há na ruas cobre a minha cama.
de quem repetir os passos?
de quem me aconchegar nos braços?
pois a mesma mão que fere, afaga num abraço.

não acreditar nas cores postas na retina,
contorcer-se ao enfrentar a multidão sem sina.
como ouvir a voz tão calma,
destroçando o peito e alma?
como impedir que a luz derreta essa cortina?

quem vela os passos e os sonhos dos seus?
quem chora as dores que encarceram a alma dos ateus?

descansa a vida nos braços de quem faz a luz brilhar,
restaura a ruína das almas,
enxuga dos olhos o amargo fel,
quem nos guarda na jornada,
quem conhece o fim da estrada,
quem antes de nós as nossas dores já sofreu.

Deus é Pai

Céu na Boca

acordar, não esquecer
que Deus é Pastor
e nada vai faltar.

onde está tua fé?
move junto com a maré!

pisa nas águas com firmeza,
Deus é força mesmo na fraqueza.
bem mais do que bens ou dinheiro,
a nossa vida é dele por inteiro.

Deus é Pai, é crer e ver!
nos dá pão, e não pedra pra comer.

nada, nada vai faltar,
Deus é Pai!

acordar, não esquecer
que Deus é Pastor
e nada vai faltar.

antes que seque a flor

Céu na Boca

trabalhar antes de entardecer,
caminhar antes de anoitecer
e viver antes de o sol se por,
antes que seque a flor da vida.

recriar tudo que se perdeu,
renovar tudo que envelheceu,
restaurar o cheiro do amor,
antes que seque a flor da vida.

esperar do suor do seu rosto o pão,
vinho à mesa, alegria e comunhão!
mas sabendo que tudo vem do Senhor,
antes que seque a flor da vida...

levar fé: não se viveu em vão,
quando vier tempo de solidão;
que a semente vai sempre dar em flor,
antes que seque a flor da vida!

nada será como antes

Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

eu já estou com o pé nessa estrada,
qualquer dia a gente se vê.
sei que nada será como antes,
amanhã.

que notícias me dão dos amigos?
que notícias me dão de você?
sei que nada será como está,
amanhã ou depois de amanhã,
resistindo na boca da noite um gosto de sol.

num domingo qualquer, qualquer hora,
ventania em qualquer direção,
sei que nada será como antes,
amanhã.

que notícias me dão dos amigos?
que notícias me dão de você?
alvoroço em meu coração,
amanhã ou depois de amanhã,
resistindo na boca da noite um gosto de sol.

num domingo qualquer, qualquer hora,
qualquer dia, em qualquer direção,
sei que nada será como antes,
amanhã.

que notícias me dão dos amigos?
que notícias me dão de você?
alvoroço em meu coração,
amanhã ou depois de amanhã,
resistindo na boca da noite um gosto de sol.

invocation

The Carpenters

for those whose eyes would see,
render them in faith to me.
for all those seeking peace,
in my arms their strife shall cease
and place in me the agony you bear.

nothing can impair the perfect love
I bring in a simple offering.

all good gifts

from the motion "Godspell"

we plow the fields and scatter
the good seed on the land,
but it is fed and watered
by God's almighty hand.
he sends us snow in winter,
the warmth to swell the grain,
the breezes and the sunshine,
and soft refreshing rain.

all good gifts around us
are sent from Heaven above.

so thank the Lord, oh!

thank the Lord for all his love.

we thank thee then, oh! Father,
for all things bright and good,
the seedtime and the harvest,
our life, our health, our food.
no gifts have we to offer
for all thy love imparts,
but that which thou desirest,
our humble thankful hearts!

all good gifts around us
are sent from Heaven above.

so thank the Lord, oh!

thank the Lord for all his love.

day by day

from the motion "Godspell"

day by day, day by day,
oh, dear Lord, three things I pray:
to see thee more clearly,
love thee more dearly,
follow thee more nearly,
day by day.

tempodestino

Nilson Chaves e Vital Lima

há entre o tempo e o destino
um caso antigo, um elo, um par.
que pode acontecer, menino,
se o tempo não passar?

feito essas águas que, subindo,
forçaram a gente a se mudar.
que pode acontecer, meu lindo,
se o tempo não passar?

o tempo é que me deu amigos
e este amor que não me sai,
que doura os campos de trigo
e os cabelos de meu pai.
faz rebentar paixões,
depois se nega às criações
e, assim, mantém a vida.
que acontecerá aos corações,
se o tempo não passar?

não mato meu amor, no fundo,
porque tenho amizade nele,
que já faz parte do meu mundo,
do tempo entre eu e ele.

quarta-feira, 4 de março de 2009

porto seguro

Lucinnha Bastos

porto seguro, erro primeiro:
índio sorriu pro estrangeiro
no mês de abril e abriu a porta
do litoral que era todo encarnado de Pau Brasil.
Ibirapitanga virou fumaça
e a desgraça veio através do oceano...

com um pano preto no mastro,
deixando um rastro vermelho
no azul atlântico, trouxe o cântico
da saudade africana aos engenhos e canaviais,
fez dançar o açoite de dia,
de noite dançava orixás.

e a região verde do Norte,
sorte, era longe dos olhos feitores,
sem vias de acesso,
ida, regresso e morte.

poucas entradas, tantas bandeiras,
milhas e mil ambições estrangeiras
rompendo a linha de tordesilhas,
brancos e índios cativos buscavam riqueza
pra encher a mão da distante nobreza
que nunca viveu ou pisou neste chão.

grita, nação, bate os tambores,
pinta tua cara com as cores da arara,
faz guerra, esta terra
é terra bendita...
grita!

terça-feira, 3 de março de 2009

corpitcho

Maria Rita

juro que tentei mudar
para algum lugar longe daqui,
pra Quixeramobim,
Parati, Paquetá,
Niquíti, Guarujá, Magé,
Jericoaquara.

mas eu resolvi voltar,
não adiantou nada fugir:
o mundo aqui mudou,
o mal globalizou,
o bicho tá pegando!

e é a terra das desigualdades,
a humanidade lavando a roupa,
oportunidade não cruza o Rebouças,
é muito louca vida por aqui.

fim-de-semana, eu viro batuqueira,
pego o meu pandeiro,
vou pra Madureira,
pro meu glorioso Império Serrano
– quem vai ganhar e subir esse ano?

pra manter esse corpitcho bacana,
acho até que vou virar marombeira.
corro o calçadão de Copacabana
de segunda a sexta-feira.

balada de agosto

Zeca Baleiro e Raimundo Fagner

lá fora a chuva desaba e, aqui no meu rosto,
cinzas de agosto e, na mesa, o vinho derramado.
tanto orgulho, que não meço
o remorso das palavras que não digo.

mesmo na luz não há quem possa se esconder no escuro;
duro caminho, o vento, a voz da tempestade.
no filme, outra novela
é o disfarce que revela o bandido.

meu coração vive cheio de amor e deserto.
perto de ti dança a minha alma desarmada.
nada peço ao sol que brilha,
se o mar é uma armadilha nos teus olhos.