terça-feira, 26 de junho de 2007

sobretudo quando chove

gerson borges

se apenas uma escolha me restasse,
eu levaria o pôr-do-sol,
ou se uma só herança me bastasse,
um rouxinol
que cantasse a dor das distâncias
e curasse essa saudade
a me invadir enquanto eu canto,
sobretudo quando chove.
a me invador enquanto eu canto,
sobretudo quando chove.

se toda a poesia, numa palavra,
eu ficaria com "jardim"
e, um tipo só de arbusto ali se lavra,
o alecrim,
concentrando o cheiro do longe,
acalmando essa saudade
a me invadir enquanto eu canto,
sobretudo quando chove.
a me invador enquanto eu canto,
sobretudo quando chove.

e chove, e chove, chove sem parar,
enquanto eu canto, canto,
ao te esperar.

se cada vez que eu penso no teu rosto,
vento virasse um vendaval,
desabaria o céu com muito gosto,
que temporal!
tormenta no mar da memória,
rimando com essa saudade
a me invadir enquanto eu canto,
sobretudo quando chove.
a me invador enquanto eu canto,
sobretudo quando chove.

änïmä

milton nascimento

lapidar, minha procura toda, trama,
lapidar o que o coração,
com toda a inspiração,
achou de nomear, gritando: "alma!"

recriar cada momento belo já vivido e mais:
atravessar fronteiras do amanhecer
e, ao entardecer,
olhar com calma então.

alma vai além de tudo
o que o nosso mundo ousa perceber,
casa cheia de coragem e vida,
tira a mancha que há no meu ser,
te quero ver, te quero ser, alma!

viajar nessa procura toda de me lapidar,
nesse momento agora de me recriar,
de me gratificar,
te busco, alma, eu sei.

casa aberta, onde mora o mestre, o mago da luz,
onde se encontra o templo
que inventa a dor,
animará o amor, onde se esquece a paz.

alma vai além de tudo
o que o nosso mundo ousa perceber,
casa cheia de coragem e vida,
todo afeto que há no meu ser,
te quero ver, te quero ser, alma!

te quero ver, alma,
te quero ser!...

coisas da vida

rita lee

quando a lua apareceu,
ninguém sonhava mais do que eu.
já era tarde
mas a noite é uma criança distraída.

depois que eu envelhecer,
ninguém precisa mais me dizer
como é estranho ser humano
nessas horas de partida.

é o fim da picada,
depois da estrada começa
uma grande avenida.
no fim da avenida,
existe uma chance, uma sorte,
uma nova saída.

qual é a moral?
qual vai ser o final
dessa história?

eu não tenho nada pra dizer,
por isso digo.
eu não tenho muito o que perder,
por isso jogo
eu não tenho hora pra morrer,
por isso sonho.

aaah...
são coisas da vida
e a gente se olha,
e não sabe se vai ou se fica!